Mesmo percebendo que minhas lembranças de escola já datam mais de trinta anos, fiz um esforço para relembrar os tempos de aulas. Minha primeira lembrança é de bem pequeninha, eu já devia ter uns 7 anos. Quase fazendo hipnose, numa mistura de lembrança e contação de história, eu me lembro de ser obrigada pelos meus pais a falar apenas português, pois minha irmã menor tinha dificuldades de usar o português na escola e o alemão em casa. Mala sem alça desde cedo, essa minha irmã. Algumas pessoas nascem com dom.
Lembro-me que pouco depois, já saída de Porto Alegre, agora em Olinda, PE, estar estudando português com a diretora da escola, essa sim, uma boa lembrança, a Vovó Auristela. Lá tínhamos que rezar antes da aula e também antes de merendar. Lembro-me ainda que provavelmente não tivesse 10 anos e já fazia a ata caprichada na letra e sem rasuras do Grêmio da escola. Isso era lá pelos idos de 70.
Em 1980 eu já morava no Rio de Janeiro. Quem tem pai militar sabe que é assim e não se discute. Pois bem, aí era a sexta série. O regime já estava na pauta do dia e na mesa do café. Sabíamos que eram tempos duros, pois se falava em anistia de presos políticos e eleições diretas. Na escola havia OSPB ou EMC. Português que tinha sido Comunicação e Expressão, agora era Comunicação em Língua Portuguesa.
Nenhum professor me causou lembrança especial, mas talvez seja eu que precise de remédio para memória. No Científico, que eu poderia ter escolhido um curso técnico como contabilidade, me propus a passar no vestibular daquele tempo. Tanto tempo que era unificado, não importava a universidade, o vestibular era um só – CESGRANRIO e de marcar cruzinhas. Deste momento ainda, eu nem me recordo de ter estudado português, e olha que eu que sempre fui boa aluna, o que era de se esperar de alguém como eu. Aliás, poucos eram os alunos razoáveis, raros eram os repetentes.
Todos tinham alguma fraqueza, é claro, e a minha era a matemática. Me lembro perfeitamente dele, o professor, e se fizesse força lembraria até do nome. E sem remédio. Mas não quero. Lembrei: Ayrton. Nada de se virar para o lado. Olhe para frente. Silêncio. Nada a ver estas lembranças, veja só para quê serviu este relato afinal.
Daqueles tempos nada me deixa interessada, nem antes e nem agora, rememorando. Sempre fui aprendiz solitária, daquela que tem sempre uma pilha à espera, vista com olhar ansioso e nada cansado. Meu sonho era aprender leitura dinâmica. Que inveja dos que não tem que ler assim devagar, ruminando a leitura. Bom mesmo seria leitura tipo vapt-vupt. Vixe, esta expressão nem se usa mais.
Que efeitos produziram esta viagem? Assim, remoendo o passado, acabo por lembrar do maior professor de todos, que foi sem dúvida meu pai, que lia e lia e tinha livros que não acabavam mais. Até que eu acabei com eles, mas nunca acabava de verdade, pois sempre tinha um que eu nem lembrava mais. Ele era uma criatura auto-didata e especial. Apesar de todos os pais sempre serem especiais, esse era especial em especial nas antíteses da doçura e dureza, da esperteza e bondade. A palavra que designa meu pai caiu em desuso: sabedoria. Na medida certa sempre de tom professoral.
Mas este tempo acabou e viro a página sorrido e com olhos ardidos de saudades. Não houve ninguém que pudesse marcar minha infância ou juventude. Será? – penso eu. Não importa, virei a página. Posso pensar no futuro, que é para isso que vivemos. Com um vento que vem de trás, provocando suspiros e o olho lá na frente, tudo que precisamos é pensar no que virá. Mas não posso deixar de reconhecer alguém que já faz parte do passado do futuro.
Finalmente, houve uma professora que mostrou como se valorizam as humanidades costurando a escrita com o alinhavo do pensamento. A arte de escrever, segundo ela, não está no que dizer, mas na forma como que se diz. Uma receita de bolo pode ser uma delícia antes mesmo de pensar se temos farinha. Assim, este relato pessoal nada seria sem esta provedora de idéias subversivas que encheu minha mente de máquinas de costura a serviço da criação. Nada antes em Português me causou tanto espanto e foi tão importante.
Relato de experiência pessoal de aprendizagem de Lingua Portuguesa (de uma desmemoriada desde os anos 70).